sábado, 20 de setembro de 2014

Despedidas

Queimada, Aeroporto de S. Jorge.
O avião da SATA que me há de levar à Base das Lajes, Terceira.

Voo S. Jorge -Terceira. Vista aérea da costa norte de S. Jorge.

Ponta dos Rosais

À saída de Velas, a caminho dos Rosais, regresso ao ambiente bucólico.

À entrada do Parque Florestal Sete Fontes, sigo as indicações da tabuleta: 
reduzo a velocidade de 6 para 3 km por hora.

Longo é o caminho até à Ponta dos Rosais. O prolongado silêncio apenas foi interrompido pelo mugir das vacas ou pela passagem de um ou outro agricultor.

Vacas sebastiânicas.

Pico e Faial vistos do interior da vigia da baleia da Ponta dos Rosais.

Pico etéreo.

Complexo do Farol dos Rosais visto da vigia.

Quando foi inaugurado, em 1958, era o melhor farol do território nacional. Os sismos limitaram-lhe a existência. A crise sísmica de 1964 forçou a primeira evacuação das famílias que ali viviam; o terramoto de 1980 provocou o abandono definitivo. Hoje, é um espaço fantasmagórico. Nas paredes, há registos de breves aventuras de verão e algumas notas de humor: “Está a ser filmado!”

Degradação e abandono.

Luzes e sombras.

Entrada principal e céu índigo.

As melhores vistas escondem-se nas traseiras do complexo. Afastam-se as matas e vemos a Ponta dos Rosais, a cabeça do Dragão, o penhasco derradeiro de S. Jorge.

Visão aberta do Atlântico, com as ilhas do Pico e do Faial. Do ponto de vista simbólico, a minha viagem chegou ao fim. O longo caminho de regresso a Velas deu-me tempo para balanços dos dias jorgenses.

Velas

Miradouro de Velas, o concelho mais importante de S. Jorge. “Os naturais (…) das duas vertentes da Serra única e longitudinal de S. Jorge (…) acostumam-se de meninos ao palpite e à sondagem do horizonte: são naturalmente vigias ou velas. A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar. (…) O nome da vila de Velas, que coube à cabeça de povoamento de S. Jorge, põe na ilha alpestre essa espécie de divisa do destino islenho – que é vigiar, velar.” Vitorino Nemésio, em O Corsário das Ilhas.

Barco interilhas S. Roque do Pico -Velas.

Havana em Velas. 
Um momento Buena Vista Social Club na Praça da República.

Rua Francisco de Lacerda, principal artéria comercial.

A Igreja Matriz de Velas possui um pequeno e interessante museu de arte sacra. O Café Açor tem uma ala lateral sobre a Praça Velha, o espaço nobre e mais antigo da vila.

Na marginal, o auditório amarelo está assente nas fundações do antigo Forte Nossa Senhora da Conceição que protegia a entrada oeste do porto.

Cais de Velas, em 1913. Desmancho da baleia. Os cetáceos eram acostados ao cais e as mantas de toucinho retiradas com ajuda de um guindaste. A partir de 1946, a maioria dos cachalotes passou a ser processada nas fábricas do Pico e do Faial. Fonte: Ilustração Portuguesa através do www.portodacalheta.blogspot.com 

Cais de Velas em 2014.

Retoques na pintura. Cais de Velas. Do alto do firmamento, protegido pelo seu bando de milhafres, diz o valente açor aos pobres pintainhos: “Não sejam piegas!” Mas, cá em baixo, no galinheiro, o apego ao Calimero é intemporal: o milho é pouco, as raposas estão sempre à espreita e há que aguentar com o fedor das doninhas.

Cordilheira Central: do Pico do Pedro ao Pico da Esperança. Descida para Norte Grande e Fajã do Ouvidor.

Início do trilho florestal junto do Pico do Pedro, que me há de levar, 
17 km e 5 horas depois, até à Fajã do Ouvidor.

Vista da Urzelina.

Memorial do acidente da SATA, em 11 de dezembro de 1999, que vitimou 35 pessoas: 31 passageiros e 4 tripulantes. Lembro-me do acidente, pois, à época, trabalhava com uma colega micaelense que era amiga do piloto e que estava visivelmente afetada com a tragédia. Na véspera, tinha falado com um jorgense que tem um cunhado bombeiro que esteve no local, na operação de recolha dos destroços e dos restos mortais. O relato tenebroso que me foi transmitido não é transponível para aqui. Ao passar por cá, passados quinze anos, é impossível não ficar indiferente. O nosso estado de alma altera-se, da contemplação descontraída ao recolhimento circunspecto. O nevoeiro que envolve a montanha e a brisa fresca que se faz sentir acrescentam mistério e tristeza.

A caminho do encoberto Pico da Esperança, o ponto mais alto de S. Jorge, com 1053 metros. 
Veem-se, ao mesmo tempo, as costas norte, à esquerda, e sul, à direita.

Por momentos, a natureza dá uma trégua. 
O vento levantou a bruma e consegue-se ver o Pico da Esperança.

Pico do Arieiro encoberto.

Pequena lagoa muito próxima do Pico da Esperança.

Pico da Esperança, uma conquista inútil.

Pico da Esperança num dia claro: parte oriental da ilha e costas norte e sul. 

Pico do Arieiro um pouco mais descoberto.

De repente, por ação das nuvens e da disposição estendida da vertente da montanha, 
parece que o canal de S. Jorge se transformou num imenso lago.

Vista do Pico. A cordilheira é o espaço privilegiado para observar as ilhas do grupo central: na costa norte, a Terceira e a Graciosa; na costa sul, o Pico e o Faial. Tem razão Raúl Brandão quando escreveu, n`As Ilhas Desconhecidas: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente.”. Aqui temos quatro!

À medida que se desce, o Sol e a humidade regressam em força. As pernas começam a dar sinais de fraqueza e as articulações de desgaste. No caminho em direção ao Norte Grande.

Sede do Parque Natural de S. Jorge, instalado na antiga escola primária de Norte Grande.

Fajã do Ouvidor, vista do Miradouro do mesmo nome.

Nesse dia, já não tive tempo nem forças para ir até lá em baixo. Fiquei-me por aqui, a contemplar o Ouvidor e o Atlântico. No regresso, conheci um calhetense que trabalhou na Póvoa de Varzim e que me falou da Casa dos Frangos, a popular churrascaria da nacional 13. Viajar é colecionar encontros improváveis. 

Urzelina

O nome da freguesia remete para urzela, uma planta tintureira importante na economia açoriana quinhentista. Torre da antiga igreja, único vestígio que sobreviveu à erupção vulcânica de 1808.

Na Urzelina, ouvi de um engraçado habitante das Manadas (freguesia vizinha) uma das frases mais curiosas que registei nesta viagem: «Quando vou a S. Miguel, perguntam-me: “Então, quando regressas às ilhas?” Às ilhas!?... Esses tipos vivem onde? Os micaelenses têm a mania que vivem num continente!» Uma variante insular do “Lisboa é capital, o resto é paisagem”. Lavas petrificadas junto às piscinas, com vista para o Pico.

Cais da Urzelina. Ao fundo, do lado direito, o pequeno museu etnográfico, instalado no antigo armazém de laranjas e dos botes baleeiros. No cais, há um painel de azulejos onde se refere que “a Urzelina é a Sintra de S. Jorge”. A freguesia é acolhedora, está enquadrada num belo cenário natural, possui algumas casas senhoriais, mas a afirmação é claramente exagerada. Castelo de Vide, no Alto Alentejo, também reclama este título. No Cabo da Roca, concelho de Sintra, o posto de turismo vende certificados a atestar a presença no ponto mais ocidental da Europa. Em abono da verdade, esse marco geográfico pertence ao Ilhéu de Monchique, nas Lajes das Flores. Enfim, anda meio mundo a enganar outro.

Interior do museu etnográfico da Urzelina, com diversas alfaias agrícolas e objetos do quotidiano doméstico. No primeiro plano, uma carruagem que pertenceu a Francisco de Lacerda.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Fajã dos Vimes

Início do trilho da Fajã dos Vimes na Serra do Topo, num caminho ladeado por hortênsias.

 A bruma invade a serra.

Início da descida da encosta. A partir daqui, segue-se montanha abaixo, por entre vegetação densa de musgos e fetos, numa escadaria tosca e escorregadia.

Primeira visão da Fajã dos Vimes. Esta fajã situa-se na costa sul e pertence à freguesia da Ribeira Seca, concelho da Calheta. É conhecida pelo seu artesanato e pela plantação de cafezeiros! Trata-se, provavelmente, do único lugar na Europa onde se produz café.

Chegada.

Visão geral da fajã. Em plano de fundo, a vegetação cobre o caminho abrupto em escadaria que liga a serra à planície costeira.

Antiga escola primária. Começa a chover…

O Sr. Manuel Nunes é um dos principais produtores de café na Fajã dos Vimes. Tomá-lo é uma experiência exclusiva do Café Nunes, pois a pequena produção apenas se destina ao seu estabelecimento. Não posso comprar café para levar, mas aceitou mostrar-me o seu cafezal: “Os arbustos dão-se bem aqui. Temos calor e humidade suficientes para eles crescerem. Por cada ano bom, segue-se um fraco. A colheita realiza-se entre maio e agosto”. Em relação ao método de produção: “Primeiro, secamos o fruto ao Sol. Assim que a casca ficar seca, debulhamo-la ligeiramente com uma pedra. De seguida, torramos as sementes numa sertã ou num caldeirão a lenha, mexendo frequentemente. Depois de moídas, o café está pronto a ser utilizado. Da plantação até à moagem, todo o trabalho é feito à mão”. Impressão pessoal: o café é mais forte do que o habitual.

Baga de café arábica. Cafezal do Sr. Manuel Nunes.

A caminho da Fajã da Fragueira.

A Fajã dos Vimes ficou para trás.

Fajã da Fragueira, hoje abandonada, terra natal do jorgense mais conhecido, Francisco de Lacerda. A subida para o Portal foi uma obra equivalente a três escadarias da Torre dos Clérigos dentro de uma estufa! Com o coração a bater 40 mil rotações por minuto, fiz várias paragens para recuperar o fôlego e não partir o motor. 

Chegada à Calheta no final da tarde, com o Pico discreto, ao fundo.